Caros amigos forenses,
Contrariamente a anos anteriores, tirei este ano para descansar o quanto baste para retemperar forças. Ou seja, tenho trabalhado mas apenas o suficiente para não ver a conta bancária decrescer.
Assim, comprei o meu FTE e tenho me dedicado como hobby a ver televisão e a explorar o assunto sobre satélites.
Tem sido, portanto, um verão calmo. Os incêndios ainda não queimaram o país. Apenas o facto de os alentejanos serem forçados a adquirir a nacionalidade espanhola logo à nascença, com os evidentes ganhos a nível de impostos a pagar, e o caso do serial killer que, provavelmente por não poder ver o mundial devido ao monopóplio da TV Kabul, dedicou-se a outra actividade tem entretido os portugueses. Para além, é claro, da boa prestação portuguesa no Mundial e a famosa batalha de nuremberga.
Ontem, muito descontraidamente, resolvi parar de trabalhar às 15.45 e fui a casa dos meus pais ver em TV Kabul paga o jogo Brasil-Gana.
Jogo chato, apenas interessante pelas chamuscas que fomos degustando durante o mesmo e pela conversa sobre a má qualiade do mundial.
Fim do jogo, penso para mim: Bem, vou buscar os miúdos ao colégio. Pode ser que assim a Maria me deixe ver sossegado o Espanha-França no café que ainda pode exibir a Sporttv. Despeço-me dos meus pais e do meu irmão e dirijo-me para a viatura.
Entro no carro, olho para o pára-brisas e vejo um papel de cor amarela. Durante breves instantes, transportado para outro planeta, pensei: Deve ser aquelas publicidade a dizer para ganharmos a vida a dobrar circulares em casa ou para ganhar dinheiro navegando na net. Mas, de súbito, voltei à realidade: Não eu vivo em Portugal. Possesso, saio do carro e a minha certeza confirma-se: Uma multa por estacionamento sem efectuar o respectivo pagamento numa urbanização residencial.
Sim é verdade: Colocaram aquelas máquinas simpáticas exactamente no sítio onde vivi quinze anos, andei de bicicleta, joguei futebol com os amigos, ensinei a minha afilhada a andar.
Podem dizer que deveria ter visto as máquinas e a sinalização. Mas a ideia é tão descabida que mesmo que batesse com o carro nelas não me apreceberia, tal o absurdo do facto.
Esbravejei em voz alta com alguns transeuntes sobre a situação, alguns foram mesmo tirar os tickets. Conformado, entrei no carro e decidi voltar para casa.
No caminho comecei a filosofar:
Se aqueles pais do miúdo que morreu em Badajoz decidiram ajudar a consolidação orçamental do governo ao decidir não transladar o corpo para Portugal, pois pensaram que se o governo não tem dinheiro para a maternidade em Elvas também não daria muito jeito ter que pagar o transporte do corpo. Por que ser miudinho por causa de uma simples multa?
Se tenho privado os meus filhos de televisão apenas pela minha indignação contra a Tv Kabul. Por que ser miudinho por causa de uma simples multa?
Se os deputados assinam o ponto e vão de feriado. Por que ser miudinho por causa de uma simples multa?
Se os carros são mais baratos na Espanha e na Alemanha. Por que ser miudinho por causa de uma simples multa?
Por que ser miudinho às vezes é preciso. A minha indignação vai me custar 30 Euros que faço questão de pagar com cerca de 2.567 moedas de 1 e 2 cêntimos.
Se é esmolas que a Câmara Municipal quer eu vou dar.
De arrumador de carros para arrumador de carros.




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